Nada é tão mau como a vida dos nossos pais. Alguém duvida que a existência dos pais se resume a dizer a toda a gente como são ignorantes?
Filho: "Vou trabalhar, adeus."
Pai: "Trabalhar? Sabes lá tu o que é trabalhar. Eu com seis anos já trabalhava. Ia trabalhar na fábrica, que ficava a trinta quiilómetros de casa e ia a pé. Não havia cá essa coisa de ir carro. Eu só quando tinha 28 anos é que vi a primeira camioneta da rodoviária, eu a tua mãe já eramos casados. Ficava tão longe que quando chegava lá, já tinha fechado. Por isso tinha de trazer o trabalho para casa. Ficava toda a noite a trabalhar que no meu tempo não se dormia. O meu pai costumava dizer que "quando morreres tens muito tempo para dormir". Não é como tu, meu calão!"
E a porrada que apanhavam? Os pais estão sempre a relativizar a porrada que nos dão com a porrada que apanhavam. "Tu sabes lá o que é porrada. Tu sabes lá o que é porrada! A mim davam-me logo assim que acordava. Não tínhamos cá despertadores. Era tudo corrido à chapada. E ao deitar? Julgavas que havia histórias? Ha! Havia era pancadaria da grossa. Doia mais que um festival de 24 horas do Manuel de Oliveira."
Mas nada se compara à fome que passavam. "Tens fome? Sabes lá tu o que é fome. Nunca passaste um dia de fome na tua vida. Nem uma tarde de fome, quanto mais. Calão, malandro. Eu quando tinha a tua idade, sabes o que é nós comíamos? Unhas dos pés com cebola frita! E depressinha e com boa cara, que o meu pai até punha a parte dele de lado para a nossa mãe fazer sandes de manhã para escola. Só tínhamos molho se alguém estava a pingar do nariz. Julgas que havia "bolicaos"? Só se fossem bolos de lama, e era só em dias de festa. Bolos de lama e maionese de alho. A tua avó era um anjo, aproveitava sempre as peles das costas no verão para os filhos comerem no inverno, salgadas. Não tínhamos dinheiro, mas tínhamos boa comida. E olha nunca me fez mal. Não é como tu meu calão, malandro."
Por mais anos que uma pessoa viva, nunca sabe nada da vida. "Vida? Sabes lá tu o que é a vida. Eu soube logo aos sete meses o que era a vida. Quando a minha mãe se punha a correr com a papa na mão e me obrigava a atravessar o quintal dos vizinhos que tinham uma matilha de cães selvagens que até se babavam todos para me afiambrarem as nádegas lisas e macias de bebé. Passados três meses parecia que tinha um rabo de boi, tão duro que era. E sabes o que era a papa, sabes? Era areia molhada! Julgavas que era "cerelac" se calhar, não? Malandro!"